Por que algumas dores passam e outras não? Entenda o que pode estar por trás da sua dor
- Luciana Fernando Davi

- 11 de abr. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 17 de abr.

A dor é uma experiência natural. A definição geral da dor é a de cumprir um papel adaptativo, ou seja, cumpre seu papel e “vai embora”. Mas, e as que não vão?
De acordo com os estudos mais recentes sobre dor, a Associação Internacional para Estudos da Dor (IASP) nos apresenta 6 classificações em forma de “notas” que, gradualmente, definem cada estágio de dor. A nota 5, é onde está a maioria dos meus pacientes.
Nota 5 de dor: "Efeitos adversos na função e no bem-estar, tanto social, quanto psicológico".
Quando um paciente me procura com dores, a condição que ele se encontra é de incapacidade física, e disfunções em atividades sociais e psicológicas. Se ele começa a não sair mais com amigos, caminhar para ir até a padaria, dirigir para o trabalho; fica entristecido, irritado e ansioso por conta disso, é o momento em que ele procura ajuda.
A intervenção aqui, é ir de trás para frente: retomar o bem-estar psicológico para poder interagir socialmente, mesmo que ainda não tenha suas funções físicas plenas. Com isso, conseguimos regredir essa nota 5 para uma que a dor se adapte e melhore.
Movimento e dor
Quando uma dor perdura por muito tempo (mais de 3 meses, em média), cria-se um hábito em relação àquela resposta dolorosa; por consequência, uma imagem cerebral, por exemplo, a de um movimento específico acionando essa dor. O cérebro usa esse mecanismo enviando - descendo - um sinal de dor para alertar perigo. Geralmente, um movimento (ou acontecimento) prévio, similar ao atual.
Não é necessário ter lesão - ou inflamação - para ter dor
Dor é uma experiência sensorial, ou seja, NÃO EXISTE um neurônio específico de dor, ou um componente em nosso corpo responsável por ela.
De modo geral, percebemos a dor diretamente proporcional ao contexto daquele momento da nossa vida: experiências passadas, medos, qualidade e tempo de sono, preocupações e demanda diárias, vão influenciar diretamente na dor. Não depende de ter inflamação, ela pode aparecer se o corpo se sente AMEAÇADO.

Por que algumas dores melhoram e outras persistem?
Nem toda dor segue o mesmo caminho.
Enquanto algumas melhoram em poucos dias ou semanas, outras podem permanecer por mais tempo, mesmo sem uma lesão evidente ou recente. Isso costuma gerar dúvida e, muitas vezes, preocupação.
É comum pensar que, se a dor continua, algo ainda está “errado” no corpo. Mas essa não é a única explicação possível.
A forma como a dor evolui depende de diversos fatores, como o tipo de estímulo inicial, a resposta do organismo, o contexto em que a pessoa está inserida e a maneira como essa dor é interpretada ao longo do tempo.
A diferença entre uma dor que passa e outra que persiste não está apenas no corpo, mas em um conjunto de fatores que influenciam como essa experiência se desenvolve.
Entender isso é um passo importante para ampliar a forma de enxergar a dor e, a partir daí, lidar com ela de maneira mais direcionada e eficaz.
Por que algumas dores não passam?
Quando a dor persiste por mais tempo do que o esperado, é comum associar isso diretamente a uma lesão que não cicatrizou. No entanto, essa é apenas uma das possibilidades, e nem sempre a principal.
A dor persistente geralmente envolve uma combinação de fatores que vão além do tecido em si. Com o tempo, o próprio sistema de percepção da dor pode se tornar mais sensível, e aspectos emocionais, comportamentais e contextuais passam a ter um papel importante.
Isso significa que a continuidade da dor nem sempre indica que há algo “piorando” no corpo, mas sim que o sistema está respondendo de forma diferente.
Sensibilização do sistema nervoso
Em alguns casos, o sistema nervoso pode se tornar mais sensível após episódios de dor.
Isso faz com que estímulos que antes eram bem tolerados passem a ser interpretados como desconfortáveis ou dolorosos. Essa resposta não significa necessariamente dano, mas sim uma maior reatividade do sistema.
Com o tempo, essa sensibilização pode contribuir para a manutenção da dor, mesmo na ausência de uma lesão ativa.
Influência de fatores emocionais e comportamentais
A dor não é apenas uma experiência física — ela também é influenciada pelo contexto emocional e pelo comportamento. Situações de estresse, preocupação constante com a dor ou experiências negativas anteriores podem aumentar o estado de alerta do organismo.
Além disso, a forma como a pessoa reage à dor (como evitar movimentos ou reduzir atividades) pode influenciar diretamente a evolução do quadro.
Esses fatores não “causam” a dor isoladamente, mas modulam a forma como ela é percebida e mantida.
Existe alguma chance de a dor passar?
Sim. Existem muitas variáveis envolvidas na dor, por consequência, muitas para tentarmos atacar.
A questão, é sempre avaliar e se aproximar ao máximo possível do contexto, para que possamos enfrenta-la juntos; até ao autogerenciamento do paciente.
Baixa exposição ao movimento
Quando o movimento é evitado por longos períodos, o corpo pode perder parte da sua capacidade de adaptação. Isso pode reduzir a tolerância a esforços simples e contribuir para que atividades do dia a dia passem a gerar desconforto.
A falta de exposição gradual ao movimento pode, portanto, manter o ciclo de dor, não por dano, mas por diminuição da capacidade do corpo de lidar com a carga.
Nenhum fisioterapeuta vai te curar.
É exatamente isso. Mas vai te ajudar a enfrentar e te dar ferramentas em forma de educação em dor, para que não seja dependente dele para sempre.
Com base nisso, é traçado um plano específico para cada pessoa com exercícios terapêuticos e muitas vezes, terapia manual. É através do movimento - essencialmente - que este organismo construirá uma nova estrutura e atitudes posturais que se adequam à rotina daquela pessoa.
Mas nada disso acontece sem a participação ativa de quem está em tratamento. O paciente não é alguém que “recebe” a melhora — ele é quem constrói esse processo no dia a dia.
As orientações, os exercícios e os ajustes feitos em consulta ganham efeito fora dela, nas escolhas, nos movimentos e na forma como a pessoa passa a se relacionar com o próprio corpo.
O fisioterapeuta guia, mas é o paciente quem executa, adapta e sustenta as mudanças. É essa participação que torna o tratamento mais eficaz e, principalmente, mais duradouro.
Por esse motivo, não podemos pensar que todo mundo que tem dor nas costas, vai ser submetido ao mesmo tratamento, aos mesmos exercícios e auto manejo. Cada um vai ter uma abordagem diferente e que caiba na própria vida.
Uma camiseta tamanho único não vai vestir bem em todo mundo, certo?
Esse é o verdadeiro papel do fisioterapeuta nas condições ortopédicas, fazer intervenções com começo, meio e fim para a independência do paciente.
O que fazer?
Um fisioterapeuta, médico especialista em dor (crônica ou não) ou fisiatra, poderão te ajudar com essa dor persistente.
Na fisioterapia, avaliamos não somente a parte física, mas fazemos uma anamnese com muita investigação e escuta para traçar o tratamento e educar o paciente durante e após a alta, para que ele se torne independente e auto eficaz.
Entender a dor muda a forma de lidar com ela
A dor nem sempre segue uma lógica simples e tentar explicá-la apenas pelo que está acontecendo no tecido pode limitar a forma como lidamos com ela.
Ao longo do tempo, diferentes fatores podem influenciar essa experiência: desde a resposta inicial do corpo até aspectos como comportamento, contexto e interpretação.
Por isso, quando uma dor não passa, o caminho não está necessariamente em buscar apenas “o que está errado”, mas em ampliar a compreensão sobre tudo o que pode estar contribuindo para que ela se mantenha.
Entender a dor não significa ignorá-la, mas sim criar mais possibilidades de lidar com ela de forma segura e direcionada.
A partir dessa compreensão, é possível tomar decisões mais conscientes, retomar o movimento com mais confiança e construir um processo de recuperação mais consistente ao longo do tempo.
Para mais informações e matérias como esta, acesse: https://www.lucianafisioterapeuta.com.br/






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